Os melhores benefícios no melhor esporte...

Rolê, aú e negativa são termos que costumavam fazer parte apenas do vocabulário dos freqüentadores das rodas de capoeira. Mas da metade dos anos 90 para cá, essas palavras passaram a integrar o universo de muitos pimpolhos de São Paulo e Rio de Janeiro. Não que os papais e as mamães tivessem aderidos aos grupos de capoeiristas da cidade. Mas porque a atividade passou a ser oferecida em várias escolas e pré-escolas -incluída ou não no currículo. Mais que um modismo passageiro, a prática coloca a criança desde os 4 anos em contato direto com um dos elementos fundamentais da cultura brasileira, além de contribuir, e muito, para o seu desenvolvimento motor, social e afetivo.

"A capoeira proporciona um trabalho global do corpo", elogia a psicopedagoga e psicomotricista Raquel Caruso Whitaker, do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD), de São Paulo, que costuma indicar a atividade a seus pacientes com problemas motores. "A criança tem que se equilibrar, dissociar braços e pernas, abaixar e levantar, além de trabalhar o ritmo", lembra ela. "Se aproxima muito da ginástica. Desenvolve coordenação, equilíbrio, flexibilidade, percepção do espaço geral e pessoal", concorda Myriam Nunomura, professora do departamento de Pedagogia do Movimento do Corpo Humano da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo. Trabalhar situações como a posição invertida e rotação, faz com que a criança entre em contato com muitas de suas habilidades. "Na primeira infância, quanto mais ricas, mais variadas forem as experiências de movimento, melhor", continua a professora.

Além do desenvolvimento motor, a prática exercita a concentração. Ao participar das rodas, a criança precisa prestar atenção no que está acontecendo com o grupo, e na sua vez de participar. A situação é ideal para exercitar a disciplina e o respeito pelo o outro. "A capoeira traz a questão do limite, o que pode e o que não pode fazer", defende a psicopedagoga Jojemima Mesquita, coordenadora pedagógica da escola Evolução, na Vila Mariana, zona Sul paulistana. "Ela possibilita a alfabetização da linguagem corporal, pré-requisito para a inteligência cognitiva e emocional", emenda.

A partir do desenvolvimento corporal, a criança adquire recursos e habilidades em outras áreas. Desenvolvimento motor, social e também afetivo. Aos 4 ou 5 anos, nem sempre é fácil se expor. "Muitas vezes as crianças choram, não querem ir na vez delas", conta o professor de Educação Física e Contra-Mestre de Capoeira Marcos Santos Mourão, o Marcola, que dá aulas na Escola da Vila, no Butantã. À medida que se vão desinibindo, passam a mostrar aos outros o que sabem, crescem emocionalmente.

Outras atividades físicas também poderiam proporcionar os mesmos benefícios. Mas certamente nenhuma traria, em meio às práticas, tantos elementos culturais. Impossível ensinar qualquer pessoa, adulta ou criança, sem tratar da origem da capoeira. Nos cursos, estão presentes tanto os movimentos quanto a História do Brasil - a escravidão, as fugas e os quilombos. Tanto é que na Escola Viva, Vila Olímpica, zona oeste paulista, na qual as aulas estão incluídas no curso de Educação Física do ensino fundamental, é feita uma parceria com os professores de Língua Portuguesa e História. "Eu também trago livros e leio sobre a escravidão para os alunos", conta Luiz Fernando Pereira Araújo de Melo, que leciona as modalidades esportivas.

Luta ou Dança?

Todas essas histórias são contadas ao som de vários instrumento musicais comandados pelo berimbau. "A música é o grande diferencial da capoeira sobre os outros esportes", afirma o instrutor Walter Ramos Pereira Júnior, da Escola Evolução. Só com o berimbau é possível fazer mais de 40 toques diferentes. Nas aulas, as crianças têm vivência de musicalização. Elas tocam instrumentos como agogô, atabaque e pandeiro.

O caráter musical, por sinal, é a razão para que se perpetue até hoje a dúvida: A capoeira é uma luta ou uma dança? Na verdade, um pouco de cada. A questão vem da época dos escravos. Nas fazendas, na frente dos senhores, os negros praticavam os movimentos como se estivessem dançando, como forma de inibir o aperfeiçoamento de suas técnicas "capoeiristas", para os futuros combates, onde a dança se transformaria em luta, na hora da fuga, lá no mato rasteiro ou capoeira, palavra de origem Tupi. Os passos viraram golpes que venciam os perseguidores.